PSICOLOGIA DO MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO
NO MATERIALISMO CAPITALISTA E CRISE DO PROLETARIADO
Psicofísica dos Conflitos entre as Classes Dirigentes e a Consciência
das Massas
Karinthy Frigyes
(Exaustivo estudo teórico das origens das lutas sociais,
baseado no materialismo histórico, de acordo com as obras principais
de Marx e Engels, amplamente exemplificado, em dois tomos)
TOMO I
Dr. Idem (agarrado com um das mãos
ao balaústre do bonde e com um dos pés á tabuleta
do letreiro Lotado, a fronte especada contra os montões de cadáveres
esmagados que atravancavam a plataforma):
-
Não tem mais lugar? Esta é boa! Tem até demais, basta
que os senhores se encolham um pouquinho. É uma pouca vergonha não
deixarem a gente subir! Tenho tanto direito de embarcar como qualquer um!
Pisei na mão do senhor? Paciência, guerra é guerra.
Se não obtivermos justiça às boas, recorreremos à
violência. Que dirigentes são estes que deixam subir uns e
recusam outros? Muito bem, nós mesmos é que vamos dar um
jeito nesta joça. Então o senhor acha que os meus negócios
são menos urgentes que os seus? Como? Embarcou na parada anterior?
E eu com isso? Quer dizer que já viajou o suficiente. Ora bolas!
Se está incomodado, pode saltar. Não adianta vir com conversa
mole para cima de mim: pouco importa quem embarcou há mais tempo,
empurrado por não sei que pistolão indecente ... o que interessa
é saber quem tem talento e força para se manter no lugar.
Com os diabos, saiam da minha frente! Abaixo o motorneiro! Morte aos gordos!
Viva a revolução! Quem for húngaro, siga-me!
(Num ímpeto irresistível, penetra na plataforma. O carro
põe-se em movimento).
TOMO II
Dr. Idem (na parada seguinte, erguido
à entrada da plataforma):
-
Mas, senhores, meus senhores, pelo amor de Deus! Não estão
vendo que não há mais lugar? ... Assim vão rebentar
a plataforma. Deixem de empurrar-se uns aos outros como animais irracionais.
Cavalheiros, não se esqueçam da dignidade humana. Afinal,
de contas, somos homens! Nem sequer um irracional embarcaria num bonde
abarrotado. Senhores, vamos manter a ordem, senão irá por
águas abaixo tudo aquilo que a sabedoria do nosso governo já
realizou em benefício da Hungria de amanhã, dentro dos limites
legais da evolução constitucional orgânica! Paciência,
meus senhores! Paciência! Aguardem o próximo carro. Uma espera
paciente e compenetrada, executada metodicamente, não poderá
deixar de produzir os seus frutos, um futuro melhor, dentro, naturalmente,
dos limites previstos pela Lei. Pensem, cavalheiros, na civilização
ocidental, meditem no grande exemplo da Alemanha, lembrem-se das garantias
constitucionais! Em nome da Nação Soberana, convido-os a
se retirarem recíproca e pacificamente uns da barriga dos outros
e aguardarem o próximo bonde! Viva o Sr. Condutor! Viva o nosso
querido Motorneiro, que dirige o nosso carro com tão sábia
clarividência através destes dias críticos! Viva o
Governo!
Fonte: RÓNAI, Paulo. Um humorista húngaro:
Karinthy Frigyes. Revista USP, n. 6, jun-jul-ago/90, p. 138.
Tradução: Paulo Rónai e Aurélio
Buarque de Holanda Ferreira.
Digitação para a Internet: Alexandre
Amorim Rocha.
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