Universo Online
Web SitesPessoais

Dedicatória | Sumário



 
 

A ADMINISTRAÇÃO PARA A QUALIDADE TOTAL NO SETOR PÚBLICO



 
 
 
 

"... what costs money are the unquality things - all the actions that involve not doing jobs right the first time." (CROSBY, Philip B. Quality is free. New York : Penguim Books, 1980.) A Administração para a Qualidade Total pode ser encarada como uma técnica gerencial baseada em axiomas e princípios que visam engajar todos os membros de uma organização, por meio da delegação de competências (empowerment), em um esforço contínuo de aprimoramento do trabalho no intuito de satisfazer ou exceder as expectativas da clientela. (KOEHLER, Jerry W. & PANKOWSKI, Joseph M. Quality government: designing, developing, and implementing TQM. Delray Beach : St. Lucie Press, 1996, p. 15)

Se uma organização não está disposta (a) a dar prioridade aos seus clientes, satisfazendo ou excedendo as suas expectativas, (b) a coletar, analisar e tomar decisões baseada em dados exatos e completos, (c) a enfatizar o aprimoramento do trabalho, independentemente do quão pouco expressivos sejam os processos envolvidos, (d) a estabelecer parcerias com clientes, fornecedores e organizações afins e (e) a delegar competências aos servidores encarregados das atividades de execução para que aprimorem os processos aos quais estão vinculados, então a Administração para a Qualidade Total não é a ferramenta gerencial apropriada.

Porém, se a organização pretende (a) fazer com que a satisfação da clientela seja a sua maior preocupação, (b) permitir que a tomada de decisões seja baseada em dados concretos, (c) estimular mudanças incrementais no trabalho, (d) desenvolver parcerias com pessoas ou entidades relacionadas com suas atividades (e) delegar competências àqueles que mantém contato direto com a clientela, executando as atividades que são a razão de ser da organização, então a Administração para a Qualidade Total é a melhor opção.

Freqüentemente, argumenta-se que as pré-condições enumeradas nos parágrafos anteriores são incompatíveis com importantes peculiaridades do serviço público. Os partidários dessa linha de pensamento sustentam que os organismos públicos têm como clientes os titulares dos Poderes Executivo e Legislativo das esferas federal, estadual e municipal. A maior ou menor alocação de recursos humanos e financeiros para esses organismos dependeria da maior ou menor satisfação proporcionada aos citados titulares. Dessa forma, o serviço público não tem como escapar dos ditames dos modelos tradicionais de administração, no qual cada nível hierárquico tem como objetivo a plena satisfação das expectativas dos níveis superiores, ainda que em detrimento dos usuários finais - os cidadãos.

Entretanto, o argumento exposto acima minimiza um fato de suma importância: a finalidade última do Estado é servir a sociedade. Efetivamente, os titulares dos Poderes Executivo e Legislativo ocupam cargos que lhes foram delegados pelo conjunto dos cidadãos. Ainda que as imperfeições dos sistemas representativos contemporâneos, associadas à ação atomizada da maioria dos agentes sociais, atribuam uma certa autonomia às autoridades governamentais, criando condições propícias a várias disfunções burocráticas, o bem estar dos cidadãos não pode deixar de ser, sob risco de uma crise de legitimidade do próprio Estado, a preocupação central do serviço público.

No caso brasileiro, é forçoso admitir que, exceto quando houve rupturas institucionais, os organismos públicos deram, tradicionalmente, pouco destaque aos usuários finais. Já os períodos autoritários, em sua busca por legitimidade política, foram marcados por notáveis esforços de modernização da administração pública. Contudo, esses esforços não apenas não criaram uma cultura organizacional promotora do aprimoramento contínuo, como também geraram muitas outras disfunções, com destaque para a exacerbação da centralização da autoridade.

Conseqüentemente, o que devemos concluir? Estamos fadados a surtos isolados de modernização administrativa, associados a regimes de exceção? Semelhante proposição é inadmissível nos tempos atuais. O alto grau de complexidade atingido por nossa sociedade, ao mesmo tempo em que torna inexeqüível um novo retrocesso político, submete o Estado a duas pressões antagônicas: demandas múltiplas e crescentes por serviços públicos e resistência a aumentos na carga tributária. A exemplo do que ocorre em outros países, os organismos públicos brasileiros estão sendo conclamados a "fazer mais com menos". É essa mudança na relação entre o Estado e os cidadãos que nos permite afirmar, para além da retórica, que os usuários finais devem ocupar uma posição central nas preocupações dos gestores públicos.

Não por coincidência, as iniciativas em favor da modernização da administração pública têm se multiplicado pelo país, em plena normalidade institucional. Entre essas iniciativas, as técnicas próprias à Administração para a Qualidade Total têm sido bastante utilizadas.

1. Os Axiomas e Princípios da Administração para a Qualidade Total

No início do presente capítulo foi dito que a Administração para Qualidade Total se baseia em axiomas e princípios. Os axiomas representam os valores fundamentais sem os quais nenhuma tentativa de implementar um programa de qualidade total prosperará. É praticamente impossível que esse programa tenha sucesso se os administradores se apegam ao modelo de gerência tradicional: decisões tomadas pelos escalões superiores e meramente executadas pelos inferiores; ênfase no atingimento de cotas pelos escalões inferiores a partir de orientações preparadas pelos superiores. Essas práticas contrariam frontalmente os axiomas da Administração para a Qualidade Total, os quais podem ser assim sintetizados:

Os princípios da Administração para a Qualidade Total, baseados nos preceitos de W. Edwards Deming e Joseph M. Juran, constam do quadro abaixo.
Os Princípios da Administração para a Qualidade Total


PRINCÍPIO
ÊNFASE
Satisfazer ou exceder as expectativas da clientela Nos clientes de cada atividade
Gerenciar processos Na identificação e aprimoramento de processos
Coleta e análise de dados são atividades permanentes Na mensuração
Decisões tomadas com base em dados concretos Na obtenção de informações a partir da coleta e da análise de dados
Aprimoramento de processos requer parcerias com clientes, fornecedores e organizações afins Na qualidade obtida dos fornecedores e na qualidade proporcionada à clientela
Equipes encarregadas de aprimorar processos buscam melhoras contínuas No uso de equipes para aprimorar os processos organizacionais
Atividades de comunicação e de reconhecimento competem a todos os membros da organização No compartilhamento de informações com as equipes encarregadas de aprimorar processos
Treinar todos os membros da organização na Administração para a Qualidade Total Na extensão do treinamento a todos os membros da organização
Mensuração do desempenho de cada processo mediante indicadores de qualidade, de produção e de resultado. Servidores são reconhecidos e premiados por sua contribuição ao aprimoramento e ao desempenho dos processos No desenvolvimento de sistemas gerenciais que propiciem resultados de qualidade e que premiem servidores que atuem em equipes encarregadas de aprimorar processos continuamente
Liderança é transformar em ação uma visão acerca da qualidade, priorizando os clientes, permitindo que as decisões sejam baseadas em dados concretos, estimulando o aparecimento de valores voltados para a qualidade e participando ativamente Na liderança por exemplo, no desenvolvimento de outros servidores, na criação de uma cultura voltada para a qualidade, na satisfação da clientela, na mensuração de resultados, no planejamento estratégico, na utilização dos recursos humanos disponíveis, na manutenção da qualidade e no apoio às equipes
 Fonte: KOEHLER & PANKOWSKI, 1996.

2. Proposta de Plano Estratégico

O governo dos Estados Unidos da América, em sua avaliação do desempenho do serviço público daquele país (National Performance Review), sustenta que os organismos públicos que implementaram com sucesso a Administração para a Qualidade Total apresentam as seguintes características (EUA, 1993):

O desenvolvimento das características indicadas acima exigiu, em geral, vários anos. A presença de dirigentes versados nas novas técnicas, de planos elaborados pacientemente e de treinamentos específicos foram sumamente importantes para essa transformação, a qual culminou na interiorização da nova cultura pelos servidores.

Os êxitos obtidos no passado permitiram que Jerry W. Koehler e Joseph M. Pankowski preparassem um plano estratégico para a implantação da Administração para a Qualidade Total, que foi testado com sucesso no Departamento do Trabalho e de Segurança no Emprego do Estado da Flórida na primeira metade da década de 90. Esse plano será sintetizado nos próximos parágrafos. (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 38-56)

Plano Estratégico para a Implantação da Administração para a Qualidade Total

3. Implantação da Administração para a Qualidade Total

Definida uma proposta de plano estratégico, impõe-se expor, mais detidamente, as prováveis implicações dessa proposta para os processos organizacionais, as equipes, os líderes e os clientes.

3.1. A Identificação dos Processos Organizacionais

A identificação dos processos organizacionais exige ferramentas apropriadas. É importante que as equipes tenham conhecimento dessas ferramentas. No entanto, a natureza heterogênea de cada equipe, com seus membros possuindo diferentes níveis de formação acadêmica e de experiência profissional, restringe, ao menos inicialmente, a variedade de ferramentas potencialmente úteis. Por essa razão, convém que os primeiros cursos acerca da Administração para a Qualidade Total se atenham às seguintes técnicas: fluxogramas, histogramas, diagramas de causa-e-efeito, gráficos de Pareto, diagramas de dispersão e diagramas temporais (com ou sem limites superior e inferior para controle).

As técnicas indicadas no parágrafo anterior, embora simples, permitem uma visão clara tanto das atividades desenvolvidas no seio da organização, como dos seus pontos fortes ou fracos. Em resumo, as técnicas em questão permitem responder de modo satisfatório as perguntas enunciadas abaixo:

Naturalmente, à medida que as equipes se consolidarem, adquirindo confiança na sua capacidade de aprimorar os processos organizacionais, surgirão demandas por técnicas mais elaboradas, envolvendo estatística.

3.2. A Atuação das Equipes

A elaboração, pela alta administração, dos fluxogramas acerca das atividades principais da organização é o primeiro passo para a constituição de equipes encarregadas do seu aprimoramento. Em seguida, são formadas equipes voluntárias para atuar em cada atividade e identificar os sub-processos. A utilização de voluntários é um modo de contornar a resistência dos gerentes que não são adeptos da Administração para a Qualidade Total. Se esses gerentes fossem forçados a participar, a liberdade de ação das equipes seria tolhida. É fundamental que cada equipe se concentre no aprimoramento dos processos organizacionais, mantendo-se afastada do controle de pessoas, tão enfatizado pelos modelos gerenciais tradicionais.

O terceiro passo corresponde ao treinamento, enquanto que o quarto é definido pela seleção do líder de cada grupo, que não necessariamente é o gerente incumbido da atividade. No início da implantação, os gerentes podem se limitar a delegar competências e a apoiar a atuação das equipes.

No quinto passo, são indicados facilitadores para cada equipe, oriundos de outras áreas da organização e dotados de treinamento específico. No sexto, são selecionados Orientadores do Aprimoramento de Processos, incumbidos de auxiliar várias equipes, comparando experiências e facilitando o acesso à alta administração.

A atuação das equipes pode ser estruturada em várias etapas, como mostrado a seguir (KOEHLER & PANKOWSKI, pp. 114-24):

Cada equipe deve avaliar o seu desempenho periodicamente, respondendo questões tais como: Sempre que houver respostas negativas para uma ou mais das perguntas indicadas anteriormente, as deficiências apontadas deverão ser objeto de discussão no seio da equipe.

Por fim, ao final de cada ciclo de identificação de problemas e de formulação de soluções, as equipes devem preparar apresentações para o conselho para a qualidade. Essas apresentações devem discorrer sobre os resultados gerados pelas mudanças introduzidas experimentalmente, baseando-se em gráficos e em outros recursos audiovisuais. É recomendável que as apresentações sejam, primeiramente, submetidas à apreciação dos gerentes vinculados aos processos que serão aprimorados no intuito de aperfeiçoar a apresentação.

3.3. O Papel das Lideranças

Na Administração para a Qualidade Total, os líderes são agentes promotores de mudanças, influenciando os membros da organização para que ajam de modo a alcançar uma situação desejável (a "visão"). Os líderes possuem algumas características intrínsecas:

Além dos aspectos psicológicos tratados acima, os líderes devem dominar algumas técnicas básicas, quais sejam: ensino, comunicação interpessoal, planejamento estratégico, tomadas de decisão, delegação de competências, mensuração de atividades e promoção e facilitação de trabalhos em equipe.

A maneira mais efetiva de avaliar o desempenho das lideranças é por meio das avaliações feitas pelos demais membros da equipe, as quais devem ser periódicas. O conselho para a qualidade também deve avaliar os líderes periodicamente, como parte do acompanhamento da atuação das equipes. Essa última avaliação resultará na seleção das melhores lideranças, as quais serão reconhecidas publicamente e recompensadas.

Dado que os líderes dificilmente conduzirão um processo de implantação da Administração para a Qualidade Total na sua forma mais pura, será preciso, ademais, que eles aprendam a confiar na sua intuição, nas suas decisões e no comportamento cooperativo dos demais servidores. Com persistência, todos criarão uma organização de que possam se orgulhar.

3.4. A Satisfação do Cliente

Como enfatizado anteriormente, as organizações devem ter como maior objetivo a satisfação de sua clientela. Para isso, precisamos entender os determinantes da percepção que os clientes têm da qualidade dos serviços prestados. Esses determinantes foram sintetizados por Morgan e Murgatroyd como mostrado a seguir (MORGAN, Colin. Total quality management in the public sector: an international perspective. Philadelphia : Open University Press, 1995, p.11):

Esses determinantes deixam claro a importância da natureza interativa da percepção acerca da qualidade. Logo, os servidores incumbidos da execução são os que melhor podem avaliar essa percepção, podendo, ainda, influir na sua formação. A delegação de competências permite que os servidores em questão interajam com seus clientes, conhecendo as suas expectativas. Para auxiliar a aludida interação, recomenda-se a utilização de instrumentos de pesquisa (surveys) para que sejam realizadas as seguintes tarefas (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 70-1): Conhecida a clientela e feitas as mensurações apropriadas, as equipes poderão propor formas de satisfazer ou exceder as expectativas dos seus clientes. Cabe destacar que a Administração para a Qualidade Total, ao promover a delegação de competências, cria as bases necessárias para que os servidores efetivamente se importem com os clientes, diferentemente dos modelos gerenciais tradicionais, os quais ensinam os servidores a "aparentar" que se importam.

3.5. Principais Lições

Jerry W. Koehler e Joseph Pankowski extraíram as lições relacionadas abaixo do trabalho realizado no Departamento do Trabalho e de Segurança no Emprego do Estado da Flórida (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 9-13):

Os autores em questão lembram ainda que as falhas mais comuns na implantação da Administração para a Qualidade Total são (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 161-2): Essas falhas não são obstáculos externos (vide item 5), mas sim internos, suscitados por um planejamento deficiente ou por uma apreensão equivocada do problema. Para que tais riscos sejam minimizados, impõe-se abrir os canais de comunicação, estimulando o debate e pondo todos a par das iniciativas tomadas.

Uma última lição que pode ser extraída é a questão da avaliação de desempenho dos servidores. Deve estar claro que a Administração para a Qualidade Total exige avaliações permanentes do desempenho de cada equipe e de suas lideranças. Essas avaliações têm como referência a otimização dos processos organizacionais. A avaliação do desempenho dos servidores está inserida nesse contexto. Ela deve ser tempestiva e caber, eminentemente, a equipe a qual pertencem. Como o compromisso é com o aprimoramento de processos, a equipe procurará zelar para que seus membros permaneçam motivados, levando ao conhecimento da gerência os casos problemáticos. Caso seja mandatória a avaliação individual de caráter formal, com prazo certo, recomenda-se que essa oportunidade não seja utilizada para comparar desempenhos, mas sim para identificar formas de melhorar o desempenho do servidor. (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, p. 209)

4. Institucionalização da Administração para a Qualidade Total

Concluída a implantação da Administração para a Qualidade Total, segue-se uma etapa não menos importante: a sua institucionalização. Essa etapa pode demandar vários anos. Qualquer descuido pode comprometer todo trabalho realizado até então. Por essa razão, é oportuno que os gestores incorporem os seguintes cuidados aos seus planos de ação de longo prazo (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 259-67):

Com esses cuidados, parece lícito concluir que os organismos públicos sofrerão mudanças duradouras em sua cultura organizacional.

5. Principais Obstáculos

Encerramos este capítulo frisando que muitas são as dificuldades enfrentadas por aqueles que se aventuram a uma empreitada tão ousada como a implantação da Administração para Qualidade Total no serviço público. Baseado em estudos da Entidade Fiscalizadora Superior dos Estados Unidos (General Accounting Office), V. Daniel Hunt sustenta que os principais obstáculos para essa implantação, em ordem de importância, são (HUNT, 1993, p. 16):

Os obstáculos enumerados acima não devem ser menosprezados. A supressão ou minimização desses obstáculos deve ser uma das maiores preocupações dos gestores comprometidos com a Administração para a Qualidade Total.

Porém, convém frisar que, apesar dos muitos críticos e dos inúmeros obstáculos, a Administração para a Qualidade Total é, modernamente, a forma mais efetiva de combater as deficiências crônicas do serviço público. Como notam Jerry W. Koehler e Joseph Pankowski, "... no one is advancing a more effective approach to managing government." (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, p. 214)


Início | Curriculum Vitae | Artigos e Monografias | Textos Cômicos Clássicos | Contato | Links Interessantes