Dedicatória |
Sumário
A ADMINISTRAÇÃO
PARA A QUALIDADE TOTAL NO SETOR PÚBLICO
"... what costs money are the unquality things -
all the actions that involve not doing jobs right the first time."
(CROSBY, Philip B. Quality is free. New York : Penguim Books, 1980.)
A Administração para a Qualidade Total pode ser encarada
como uma técnica gerencial baseada em axiomas e princípios
que visam engajar todos os membros de uma organização, por
meio da delegação de competências (empowerment),
em um esforço contínuo de aprimoramento do trabalho no intuito
de satisfazer ou exceder as expectativas da clientela. (KOEHLER, Jerry
W. & PANKOWSKI, Joseph M. Quality government: designing, developing,
and implementing TQM. Delray Beach : St. Lucie Press, 1996, p. 15)
Se uma organização não está disposta (a)
a dar prioridade aos seus clientes, satisfazendo ou excedendo as suas expectativas,
(b) a coletar, analisar e tomar decisões baseada em dados exatos
e completos, (c) a enfatizar o aprimoramento do trabalho, independentemente
do quão pouco expressivos sejam os processos envolvidos, (d) a estabelecer
parcerias com clientes, fornecedores e organizações afins
e (e) a delegar competências aos servidores encarregados das atividades
de execução para que aprimorem os processos aos quais estão
vinculados, então a Administração para a Qualidade
Total não é a ferramenta gerencial apropriada.
Porém, se a organização pretende (a) fazer com
que a satisfação da clientela seja a sua maior preocupação,
(b) permitir que a tomada de decisões seja baseada em dados concretos,
(c) estimular mudanças incrementais no trabalho, (d) desenvolver
parcerias com pessoas ou entidades relacionadas com suas atividades (e)
delegar competências àqueles que mantém contato direto
com a clientela, executando as atividades que são a razão
de ser da organização, então a Administração
para a Qualidade Total é a melhor opção.
Freqüentemente, argumenta-se que as pré-condições
enumeradas nos parágrafos anteriores são incompatíveis
com importantes peculiaridades do serviço público. Os partidários
dessa linha de pensamento sustentam que os organismos públicos têm
como clientes os titulares dos Poderes Executivo e Legislativo das esferas
federal, estadual e municipal. A maior ou menor alocação
de recursos humanos e financeiros para esses organismos dependeria da maior
ou menor satisfação proporcionada aos citados titulares.
Dessa forma, o serviço público não tem como escapar
dos ditames dos modelos tradicionais de administração, no
qual cada nível hierárquico tem como objetivo a plena satisfação
das expectativas dos níveis superiores, ainda que em detrimento
dos usuários finais - os cidadãos.
Entretanto, o argumento exposto acima minimiza um fato de suma importância:
a finalidade última do Estado é servir a sociedade. Efetivamente,
os titulares dos Poderes Executivo e Legislativo ocupam cargos que lhes
foram delegados pelo conjunto dos cidadãos. Ainda que as imperfeições
dos sistemas representativos contemporâneos, associadas à
ação atomizada da maioria dos agentes sociais, atribuam uma
certa autonomia às autoridades governamentais, criando condições
propícias a várias disfunções burocráticas,
o bem estar dos cidadãos não pode deixar de ser, sob risco
de uma crise de legitimidade do próprio Estado, a preocupação
central do serviço público.
No caso brasileiro, é forçoso admitir que, exceto quando
houve rupturas institucionais, os organismos públicos deram, tradicionalmente,
pouco destaque aos usuários finais. Já os períodos
autoritários, em sua busca por legitimidade política, foram
marcados por notáveis esforços de modernização
da administração pública. Contudo, esses esforços
não apenas não criaram uma cultura organizacional promotora
do aprimoramento contínuo, como também geraram muitas outras
disfunções, com destaque para a exacerbação
da centralização da autoridade.
Conseqüentemente, o que devemos concluir? Estamos fadados a surtos
isolados de modernização administrativa, associados a regimes
de exceção? Semelhante proposição é
inadmissível nos tempos atuais. O alto grau de complexidade atingido
por nossa sociedade, ao mesmo tempo em que torna inexeqüível
um novo retrocesso político, submete o Estado a duas pressões
antagônicas: demandas múltiplas e crescentes por serviços
públicos e resistência a aumentos na carga tributária.
A exemplo do que ocorre em outros países, os organismos públicos
brasileiros estão sendo conclamados a "fazer mais com menos". É
essa mudança na relação entre o Estado e os cidadãos
que nos permite afirmar, para além da retórica, que os usuários
finais devem ocupar uma posição central nas preocupações
dos gestores públicos.
Não por coincidência, as iniciativas em favor da modernização
da administração pública têm se multiplicado
pelo país, em plena normalidade institucional. Entre essas iniciativas,
as técnicas próprias à Administração
para a Qualidade Total têm sido bastante utilizadas.
1. Os Axiomas e Princípios da Administração
para a Qualidade Total
No início do presente capítulo foi dito que a Administração
para Qualidade Total se baseia em axiomas e princípios. Os axiomas
representam os valores fundamentais sem os quais nenhuma tentativa de implementar
um programa de qualidade total prosperará. É praticamente
impossível que esse programa tenha sucesso se os administradores
se apegam ao modelo de gerência tradicional: decisões tomadas
pelos escalões superiores e meramente executadas pelos inferiores;
ênfase no atingimento de cotas pelos escalões inferiores a
partir de orientações preparadas pelos superiores. Essas
práticas contrariam frontalmente os axiomas da Administração
para a Qualidade Total, os quais podem ser assim sintetizados:
-
os servidores, independentemente de seu posicionamento hierárquico,
podem contribuir criticamente para o aprimoramento da organização;
-
os servidores encarregados das atividades de execução são
os mais capacitados a contribuir para o aprimoramento dos processos;
-
as mudanças incrementais, em oposição às reestruturações
radicais, são a forma mais efetiva de aperfeiçoar os organismos
públicos;
-
os membros da organização são guiados por valores
comuns;
-
a prevenção de problemas é preferível à
detecção;
-
todos os membros da organização devem estar imbuídos
da importância da Administração para a Qualidade Total.
Os princípios da Administração para a Qualidade Total,
baseados nos preceitos de W. Edwards Deming e Joseph M. Juran, constam
do quadro abaixo.
Os Princípios da Administração para a Qualidade
Total
|
PRINCÍPIO
|
ÊNFASE
|
| Satisfazer ou exceder as expectativas
da clientela |
Nos clientes de cada atividade |
| Gerenciar processos |
Na identificação
e aprimoramento de processos |
| Coleta e análise de dados
são atividades permanentes |
Na mensuração |
| Decisões tomadas com base
em dados concretos |
Na obtenção de informações
a partir da coleta e da análise de dados |
| Aprimoramento de processos requer
parcerias com clientes, fornecedores e organizações afins |
Na qualidade obtida dos fornecedores
e na qualidade proporcionada à clientela |
| Equipes encarregadas de aprimorar
processos buscam melhoras contínuas |
No uso de equipes para aprimorar
os processos organizacionais |
| Atividades de comunicação
e de reconhecimento competem a todos os membros da organização |
No compartilhamento de informações
com as equipes encarregadas de aprimorar processos |
| Treinar todos os membros da organização
na Administração para a Qualidade Total |
Na extensão do treinamento
a todos os membros da organização |
| Mensuração do desempenho
de cada processo mediante indicadores de qualidade, de produção
e de resultado. Servidores são reconhecidos e premiados por sua
contribuição ao aprimoramento e ao desempenho dos processos |
No desenvolvimento de sistemas
gerenciais que propiciem resultados de qualidade e que premiem servidores
que atuem em equipes encarregadas de aprimorar processos continuamente |
| Liderança é transformar
em ação uma visão acerca da qualidade, priorizando
os clientes, permitindo que as decisões sejam baseadas em dados
concretos, estimulando o aparecimento de valores voltados para a qualidade
e participando ativamente |
Na liderança por exemplo,
no desenvolvimento de outros servidores, na criação de uma
cultura voltada para a qualidade, na satisfação da clientela,
na mensuração de resultados, no planejamento estratégico,
na utilização dos recursos humanos disponíveis, na
manutenção da qualidade e no apoio às equipes |
Fonte: KOEHLER & PANKOWSKI, 1996.
2. Proposta de Plano Estratégico
O governo dos Estados Unidos da América, em sua avaliação
do desempenho do serviço público daquele país (National
Performance Review), sustenta que os organismos públicos que
implementaram com sucesso a Administração para a Qualidade
Total apresentam as seguintes características (EUA, 1993):
-
abandonaram o modelo de gerência tradicional, substituindo o reconhecimento
pela mera obediência às regras pelo reconhecimento por resultados
atingidos;
-
colocaram os clientes no primeiro lugar, consultando-os, reestruturando
as suas atividades para melhor atendê-los e utilizando mecanismos
próprios a uma economia de mercado, como a concorrência por
clientes, para estimular a busca pelo êxito;
-
delegaram competências aos servidores, dando-lhes maior liberdade
para solucionar problemas suscitados pelos clientes;
-
ativeram-se ao básico, suprimindo rotinas obsoletas, eliminando
duplicações e suprimindo privilégios.
O desenvolvimento das características indicadas acima exigiu, em
geral, vários anos. A presença de dirigentes versados nas
novas técnicas, de planos elaborados pacientemente e de treinamentos
específicos foram sumamente importantes para essa transformação,
a qual culminou na interiorização da nova cultura pelos servidores.
Os êxitos obtidos no passado permitiram que Jerry W. Koehler e
Joseph M. Pankowski preparassem um plano estratégico para a implantação
da Administração para a Qualidade Total, que foi testado
com sucesso no Departamento do Trabalho e de Segurança no Emprego
do Estado da Flórida na primeira metade da década de 90.
Esse plano será sintetizado nos próximos parágrafos.
(KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 38-56)
Plano Estratégico para a Implantação da Administração
para a Qualidade Total
-
Definição da "Visão": futuro desejado para a organização;
-
Estratégia para o 1. semestre:
-
realização de seminários de sensibilização,
destinados a disseminar por toda organização as pré-condições,
os axiomas e os princípios próprios à Administração
para a Qualidade Total;
-
distribuição (a) de brochuras que discorram sobre a transformação
almejada pela organização e (b) de textos especializados;
-
preparação de fluxogramas acerca das atividades principais
da organização, permitindo um melhor entendimento dos trabalhos
desenvolvidos e da relação mantida com os clientes e os fornecedores;
-
recrutamento de voluntários para as equipes encarregadas de aprimorar
os processos organizacionais, as quais seguirão, em linhas gerais,
as etapas abaixo indicadas:
-
identificação das atividades principais a ser examinadas
e incrementadas por cada equipe;
-
delegação de competências às equipes;
-
definição do cronograma de reuniões;
-
preparação de fluxogramas acerca de todos os processos relacionados
com a área de atuação de cada equipe;
-
apuração das expectativas dos clientes, internos ou externos;
-
coleta e análise de dados;
-
documentação dos aprimoramentos;
-
reinício do ciclo;
-
disseminação por toda organização da notícia
de que as equipes encarregadas de aprimorar os processos organizacionais
já estão atuando, parabenizando os voluntários;
-
estímulo ao surgimento, no seio da organização, de
líderes identificados com a Administração para a Qualidade
Total e cujos atos sejam estritamente coerentes com suas palavras;
-
definição dos valores norteadores da alta administração,
capacitando-a a agir como uma equipe;
-
delimitação, pela alta administração, da "Missão"
da organização, explicitando a sua razão de ser;
-
constituição de equipe encarregada de orientar os membros
da organização nas etapas iniciais da implantação
da Administração para a Qualidade Total, a qual, além
de se reunir periodicamente para avaliar os avanços feitos e para
recomendar novas ações, procurará responder as seguintes
questões:
-
Quais são os pontos fortes da organização em relação
à Administração para a Qualidade Total?
-
Quais são os pontos fracos?
-
Há condições favoráveis à implementação?
-
Há ameaças potenciais à implementação?
-
Estratégia para o 2. semestre:
-
prosseguimento das ações tomadas nos seis primeiros meses;
-
constituição de um conselho para a qualidade, integrado por
líderes oriundos das diversas esferas administrativas e encarregado
tanto da formalização da implantação da Administração
para a Qualidade Total, como da proposição de novas ações;
-
oferecimento de treinamentos específicos aos membros da organização;
-
acompanhamento da atuação de cada equipe, registrando-se
a sua composição, as atribuições de seus integrantes,
a extensão do treinamento recebido e o cronograma fixado para as
reuniões;
-
comparação dos processos executados pela organização
com os processos de organizações similares, buscando-se sugestões
para possíveis aprimoramentos (benchmarking);
-
Estratégia para o 2. ano:
-
prosseguimento das ações tomadas no 1. ano;
-
seleção, entre os voluntários mais destacados, de
Orientadores do Aprimoramento de Processos, os quais deverão estreitar
as relações entre as equipes e a alta administração;
-
apuração, mediante consulta aos membros da organização,
do progresso da implantação da Administração
para a Qualidade Total, determinando-se, entre outros pontos, o seguinte:
-
Todos têm tido oportunidade de participar da implementação?
-
As ofertas de treinamento específico têm sido ampla e oportunamente
divulgadas?
-
As chefias imediatas têm estimulado a participação
na implementação?
-
Todos têm conhecimento das ferramentas próprias à Administração
para Qualidade Total?
-
Todos se sentem diretamente responsáveis pelo aprimoramento de suas
atividades?
-
constituição de equipes encarregadas de equacionar questões
pontuais identificadas pela alta administração (p.ex.: equipes
incumbidas da avaliação de desempenho, da elaboração
de consultas e da definição de critérios de mensuração
da qualidade);
-
promoção dos líderes que surgiram no 1. ano, estimulando-se
o surgimento de novas lideranças;
-
predomínio da busca por melhores processos em detrimento do mero
atingimento de cotas e padrões de desempenho;
-
abolição do medo no ambiente de trabalho mediante a garantia
de que os servidores excedentes serão realocados;
-
Estratégia para o 3. ano:
-
inscrição em concursos que premiam as melhores iniciativas
no campo da qualidade total;
-
constituição de equipe encarregada de avaliar internamente
os processos da organização;
-
estabelecimento de parcerias com organizações afins, ou seja,
cujos processos sejam afetados ou afetem as atividades da organização;
-
reestruturação da organização após a
identificação e o aprimoramento dos processos;
-
oferecimento de cursos avançados sobre qualidade total (p.ex.:,
estudo da obra de W. Edwards Deming e Joseph M. Juran, de ferramentas avançadas
da qualidade total e da avaliação de desempenho, de estatística
aplicada ao controle de processos, de psicologia aplicada ao trabalho em
equipe, do uso da tecnologia no aprimoramento de processos e de técnicas
avançadas para líderes, para apresentações
em público e para facilitadores de trabalhos em equipe);
-
Institucionalização da Administração para a
Qualidade Total: preocupação com o cliente passa a ser a
principal característica da organização.
3. Implantação da Administração para a Qualidade
Total
Definida uma proposta de plano estratégico, impõe-se expor,
mais detidamente, as prováveis implicações dessa proposta
para os processos organizacionais, as equipes, os líderes e os clientes.
3.1. A Identificação dos Processos Organizacionais
A identificação dos processos organizacionais exige ferramentas
apropriadas. É importante que as equipes tenham conhecimento dessas
ferramentas. No entanto, a natureza heterogênea de cada equipe, com
seus membros possuindo diferentes níveis de formação
acadêmica e de experiência profissional, restringe, ao menos
inicialmente, a variedade de ferramentas potencialmente úteis. Por
essa razão, convém que os primeiros cursos acerca da Administração
para a Qualidade Total se atenham às seguintes técnicas:
fluxogramas, histogramas, diagramas de causa-e-efeito, gráficos
de Pareto, diagramas de dispersão e diagramas temporais (com ou
sem limites superior e inferior para controle).
As técnicas indicadas no parágrafo anterior, embora simples,
permitem uma visão clara tanto das atividades desenvolvidas no seio
da organização, como dos seus pontos fortes ou fracos. Em
resumo, as técnicas em questão permitem responder de modo
satisfatório as perguntas enunciadas abaixo:
-
Quais problemas devem ser tratados prioritariamente?
-
fluxogramas;
-
gráficos de Pareto:
-
Como caracterizar o problema (o que é? qual é a sua causa?
como, onde e quando ocorre? quanto custa?)?
-
gráficos de Pareto;
-
histogramas;
-
diagramas temporais sem limites para controle;
-
diagramas de causa-e-efeito;
-
diagramas de dispersão;
-
O que pode ser feito para corrigir o problema?
-
gráficos de Pareto;
-
histogramas;
-
diagramas temporais com limites para controle.
Naturalmente, à medida que as equipes se consolidarem, adquirindo
confiança na sua capacidade de aprimorar os processos organizacionais,
surgirão demandas por técnicas mais elaboradas, envolvendo
estatística.
3.2. A Atuação das Equipes
A elaboração, pela alta administração, dos
fluxogramas acerca das atividades principais da organização
é o primeiro passo para a constituição de equipes
encarregadas do seu aprimoramento. Em seguida, são formadas equipes
voluntárias para atuar em cada atividade e identificar os sub-processos.
A utilização de voluntários é um modo de contornar
a resistência dos gerentes que não são adeptos da Administração
para a Qualidade Total. Se esses gerentes fossem forçados a participar,
a liberdade de ação das equipes seria tolhida. É fundamental
que cada equipe se concentre no aprimoramento dos processos organizacionais,
mantendo-se afastada do controle de pessoas, tão enfatizado pelos
modelos gerenciais tradicionais.
O terceiro passo corresponde ao treinamento, enquanto que o quarto é
definido pela seleção do líder de cada grupo, que
não necessariamente é o gerente incumbido da atividade. No
início da implantação, os gerentes podem se limitar
a delegar competências e a apoiar a atuação das equipes.
No quinto passo, são indicados facilitadores para cada equipe,
oriundos de outras áreas da organização e dotados
de treinamento específico. No sexto, são selecionados Orientadores
do Aprimoramento de Processos, incumbidos de auxiliar várias equipes,
comparando experiências e facilitando o acesso à alta administração.
A atuação das equipes pode ser estruturada em várias
etapas, como mostrado a seguir (KOEHLER & PANKOWSKI, pp. 114-24):
-
1. etapa: a primeira reunião, suscitada pela existência de
uma quantidade suficiente de voluntários interessados no aprimoramento
de um dado processo; essa reunião será tida como bem sucedida,
apesar da falta de treinamento prévio e da dificuldade em conciliar
as novas atribuições com as atribuições usuais
de cada servidor, se os participantes concordarem que podem aprimorar a
organização se trabalharem em conjunto;
-
2. etapa: a segunda reunião, na qual os participantes procuram chegar
a um consenso acerca da missão da equipe (p.ex.:, diminuir a incidência
de erros ou reduzir o tempo médio de execução de uma
da dada tarefa);
-
3. etapa: a terceira reunião, na qual os participantes devem definir
os valores que nortearão tanto a execução do trabalho,
como as relações que serão mantidas entre os membros
da equipe, criando as bases para uma cooperação duradoura;
-
4. etapa: três, cinco ou mais reuniões dedicadas à
elaboração de fluxogramas, convidando-se servidores versados
nessa área para orientar os trabalhos da equipe;
-
5. etapa: identificação, com base nos fluxogramas, dos clientes
e dos fornecedores de cada processo;
-
6. etapa: três ou quatro reuniões para que as equipes aprendam
a mensurar a qualidade dos produtos ou serviços obtidos dos fornecedores
e ofertados aos clientes;
-
7. etapa: coleta de dados acerca dos produtos ou serviços obtidos
dos fornecedores, apurando-se a incidência de erros;
-
8. etapa: quinze ou mais reuniões, dedicadas à concepção
de fluxogramas ideais, os quais devem ser comparados com os fluxogramas
utilizados, apontando estrangulamentos e duplicidades;
-
9. etapa: coleta de dados acerca da satisfação proporcionada
à clientela, recorrendo-se a questionários enviados por meio
dos correios ou a entrevistas, pessoais ou telefônica;
-
10. etapa: determinação, por decisão da maioria dos
membros de cada equipe, dos principais obstáculos enfrentados pelos
processos organizacionais e das melhores oportunidades para aprimoramento;
-
11. etapa: planejamento, com base nos dados coletados, dos aprimoramentos
pretendidos;
-
12. etapa: introdução de mudanças de caráter
experimental nos processos organizacionais;
-
13. etapa: exame dos novos resultados, determinando-se a consistência
dos aprimoramentos pretendidos;
-
14. etapa: institucionalização das mudanças bem sucedidas
e reinício do ciclo de aprimoramentos.
Cada equipe deve avaliar o seu desempenho periodicamente, respondendo questões
tais como:
-
Os membros da equipe estão plenamente comprometidos com o aprimoramento
contínuo de processos?
-
Os membros da equipe comportam-se de modo condizente com os valores acordados?
-
A equipe busca satisfazer ou exceder as expectativas da clientela?
-
Os membros da equipe apóiam-se mutuamente?
-
Todos os membros da equipe contribuem para a execução do
trabalho?
-
Todas as reuniões possuem agendas pré-definidas?
-
A equipe é eficaz na identificação de problemas?
-
A equipe é eficaz na análise dos problemas identificados
e na formulação de soluções?
-
Todas as reuniões possuem atas?
-
A equipe é eficaz na comunicação de seus avanços
à alta administração?
Sempre que houver respostas negativas para uma ou mais das perguntas indicadas
anteriormente, as deficiências apontadas deverão ser objeto
de discussão no seio da equipe.
Por fim, ao final de cada ciclo de identificação de problemas
e de formulação de soluções, as equipes devem
preparar apresentações para o conselho para a qualidade.
Essas apresentações devem discorrer sobre os resultados gerados
pelas mudanças introduzidas experimentalmente, baseando-se em gráficos
e em outros recursos audiovisuais. É recomendável que as
apresentações sejam, primeiramente, submetidas à apreciação
dos gerentes vinculados aos processos que serão aprimorados no intuito
de aperfeiçoar a apresentação.
3.3. O Papel das Lideranças
Na Administração para a Qualidade Total, os líderes
são agentes promotores de mudanças, influenciando os membros
da organização para que ajam de modo a alcançar uma
situação desejável (a "visão"). Os líderes
possuem algumas características intrínsecas:
-
energia: capacidade de estimular os demais servidores;
-
iniciativa em ambientes incertos: capacidade de ação mesmo
quando a informação é incompleta;
-
persistência: capacidade de perseverar ainda que algumas das iniciativas
tomadas não sejam bem sucedidas;
-
confiabilidade: capacidade de demonstrar apoio aos demais partidários
da Administração para a Qualidade Total;
-
auto-estima positiva: confiança em sua capacidade de implementar
a Administração para a Qualidade Total;
-
necessidade de influenciar: desejo de influir sobre as ações
dos demais servidores em prol da organização.
Além dos aspectos psicológicos tratados acima, os líderes
devem dominar algumas técnicas básicas, quais sejam: ensino,
comunicação interpessoal, planejamento estratégico,
tomadas de decisão, delegação de competências,
mensuração de atividades e promoção e facilitação
de trabalhos em equipe.
A maneira mais efetiva de avaliar o desempenho das lideranças
é por meio das avaliações feitas pelos demais membros
da equipe, as quais devem ser periódicas. O conselho para a qualidade
também deve avaliar os líderes periodicamente, como parte
do acompanhamento da atuação das equipes. Essa última
avaliação resultará na seleção das melhores
lideranças, as quais serão reconhecidas publicamente e recompensadas.
Dado que os líderes dificilmente conduzirão um processo
de implantação da Administração para a Qualidade
Total na sua forma mais pura, será preciso, ademais, que eles aprendam
a confiar na sua intuição, nas suas decisões e no
comportamento cooperativo dos demais servidores. Com persistência,
todos criarão uma organização de que possam se orgulhar.
3.4. A Satisfação do Cliente
Como enfatizado anteriormente, as organizações devem ter
como maior objetivo a satisfação de sua clientela. Para isso,
precisamos entender os determinantes da percepção que os
clientes têm da qualidade dos serviços prestados. Esses determinantes
foram sintetizados por Morgan e Murgatroyd como mostrado a seguir (MORGAN,
Colin. Total quality management in the public sector: an international
perspective. Philadelphia : Open University Press, 1995, p.11):
-
ser confiável (p.ex.: execução do serviço no
tempo fixado);
-
ser prestativo (p.ex.: disposição para executar o serviço);
-
ser acessível (p.ex.: facilidade para manter contato com o provedor
do serviço);
-
ser cortês (p.ex.: comportamento polido, amigável e respeitoso
por parte do prestador do serviço);
-
ser comunicativo (p.ex.: fornecimento de todas as informações
necessárias);
-
ter credibilidade (p.ex.: palavras e ações condizentes com
os interesses dos clientes);
-
conhecer a clientela (p.ex.: atendimento personalizado);
-
ser apresentável (p.ex.: aparência profissional).
Esses determinantes deixam claro a importância da natureza interativa
da percepção acerca da qualidade. Logo, os servidores incumbidos
da execução são os que melhor podem avaliar essa percepção,
podendo, ainda, influir na sua formação. A delegação
de competências permite que os servidores em questão interajam
com seus clientes, conhecendo as suas expectativas. Para auxiliar a aludida
interação, recomenda-se a utilização de instrumentos
de pesquisa (surveys) para que sejam realizadas as seguintes tarefas
(KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 70-1):
-
definir as expectativas dos clientes;
-
determinar os indicadores de qualidade relacionados com cada processo que
tenham impacto direto sobre os clientes;
-
identificar os métodos para a obtenção de retroalimentações
(feedbacks) dos clientes (p.ex.: consultas, entrevistas, grupos
para teste, conselhos compostos por clientes e sistemas de coleta de sugestões
ou de reclamações);
-
apurar as expectativas da clientela em relação aos servidores
incumbidos da execução e em relação ao período
de tempo demandado pela prestação do serviço;
-
apurar a percepção que os clientes têm dos servidores
incumbidos da execução e das instalações nas
quais são prestados os serviços;
-
coletar dados sobre os indicadores de qualidade;
-
divulgar os indicadores definidos para todos os membros da equipe para
que possam ser aprimorados.
Conhecida a clientela e feitas as mensurações apropriadas,
as equipes poderão propor formas de satisfazer ou exceder as expectativas
dos seus clientes. Cabe destacar que a Administração para
a Qualidade Total, ao promover a delegação de competências,
cria as bases necessárias para que os servidores efetivamente se
importem com os clientes, diferentemente dos modelos gerenciais tradicionais,
os quais ensinam os servidores a "aparentar" que se importam.
3.5. Principais Lições
Jerry W. Koehler e Joseph Pankowski extraíram as lições
relacionadas abaixo do trabalho realizado no Departamento do Trabalho e
de Segurança no Emprego do Estado da Flórida (KOEHLER &
PANKOWSKI, 1996, pp. 9-13):
-
os incentivos financeiros promovem aumentos na produtividade;
-
os incentivos financeiros são compensados, com folga, pelas economias
feitas;
-
os incentivos financeiros devem ser concedidos às equipes, enquanto
que os incentivos individuais prejudicam a qualidade e cooperação;
-
os servidores, independentemente de seu posicionamento hierárquico,
mostram-se, em geral, dispostos a executar tarefas mais árduas e
complexas, e a assumir maiores responsabilidades;
-
os treinamentos são valorizados e proveitosos;
-
a flexibilidade orçamentária permite uma administração
mais efetiva;
-
os organismos públicos são avaliados com base na conjugação
dos fatores "qualidade" e "produtividade".
Os autores em questão lembram ainda que as falhas mais comuns na
implantação da Administração para a Qualidade
Total são (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 161-2):
-
adoção de uma abordagem fragmentada;
-
limitação do esforço a uma única área;
-
implementação da Administração para a Qualidade
Total sem que o modelo gerencial tradicional seja suprimido;
-
não-reconhecimento dos servidores que se destacaram no desenvolvimento
dos trabalhos em equipe e na busca da qualidade;
-
implementação restrita ao aprendizado das ferramentas específicas;
-
implementação puramente retórica;
-
falha na estratégia de envolvimento dos clientes e dos fornecedores;
-
treinamento reduzido;
-
expectativas demasiadamente baixas;
-
comunicação pobre.
Essas falhas não são obstáculos externos (vide
item 5), mas sim internos, suscitados por um planejamento deficiente ou
por uma apreensão equivocada do problema. Para que tais riscos sejam
minimizados, impõe-se abrir os canais de comunicação,
estimulando o debate e pondo todos a par das iniciativas tomadas.
Uma última lição que pode ser extraída é
a questão da avaliação de desempenho dos servidores.
Deve estar claro que a Administração para a Qualidade Total
exige avaliações permanentes do desempenho de cada equipe
e de suas lideranças. Essas avaliações têm como
referência a otimização dos processos organizacionais.
A avaliação do desempenho dos servidores está inserida
nesse contexto. Ela deve ser tempestiva e caber, eminentemente, a equipe
a qual pertencem. Como o compromisso é com o aprimoramento de processos,
a equipe procurará zelar para que seus membros permaneçam
motivados, levando ao conhecimento da gerência os casos problemáticos.
Caso seja mandatória a avaliação individual de caráter
formal, com prazo certo, recomenda-se que essa oportunidade não
seja utilizada para comparar desempenhos, mas sim para identificar formas
de melhorar o desempenho do servidor. (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, p.
209)
4. Institucionalização da Administração
para a Qualidade Total
Concluída a implantação da Administração
para a Qualidade Total, segue-se uma etapa não menos importante:
a sua institucionalização. Essa etapa pode demandar vários
anos. Qualquer descuido pode comprometer todo trabalho realizado até
então. Por essa razão, é oportuno que os gestores
incorporem os seguintes cuidados aos seus planos de ação
de longo prazo (KOEHLER & PANKOWSKI, 1996, pp. 259-67):
-
constância de propósitos (a organização deve
continuar pautando as suas ações nos axiomas da Administração
para a Qualidade Total);
-
reavaliações periódicas da "visão", da missão,
dos valores e do desempenho da organização (pontos fortes
e fracos, oportunidades e ameaças);
-
demonstrações claras pela alta administração
que continua endossando a Administração para a Qualidade
Total (comunicados escritos e orais, comportamento condizente, promoção
dos gerentes mais empenhados, participação em equipes encarregadas
de aprimorar processos, ênfase na satisfação do cliente,
utilização de ferramentas próprias e tomada de decisões
baseada em dados objetivos);
-
manutenção da ênfase na qualidade em detrimento do
mero atendimento de cotas e de padrões de desempenho;
-
destaque para os êxitos alcançados nos relatórios de
gestão elaborados periodicamente (identificação dos
processos que foram aprimorados e dos resultados auferidos e comparação
dos benefícios proporcionados com as expectativas originais dos
clientes);
-
reestruturação da organização em torno de suas
atividades principais;
-
redução da quantidade de gerências médias, atribuindo-se
mais de um processo para cada gerente, os quais terão de atuar,
necessariamente, como líderes do aprimoramento de processos;
-
delegação de competências ao conselho para a qualidade,
o qual ficará encarregado da avaliação do desempenho
de cada equipe, do planejamento de longo prazo dos aprimoramentos, da definição
de critérios e políticas para a qualidade, da condução
de consultas, da publicação de resultados, etc.;
-
extensão do treinamento acerca da Administração para
a Qualidade Total a todos os servidores;
-
continuidade da política de formação de parcerias
com fornecedores e organismos afins, refinando especificações
e partilhando dados;
-
estímulo ao permanente aperfeiçoamento das equipes e ao surgimento
de novas lideranças;
-
prosseguimento, no intuito de promover a avaliação interna,
da estratégia de inscrever a organização em concursos
que premiam as melhores iniciativas no campo da qualidade total.
Com esses cuidados, parece lícito concluir que os organismos públicos
sofrerão mudanças duradouras em sua cultura organizacional.
5. Principais Obstáculos
Encerramos este capítulo frisando que muitas são as dificuldades
enfrentadas por aqueles que se aventuram a uma empreitada tão ousada
como a implantação da Administração para Qualidade
Total no serviço público. Baseado em estudos da Entidade
Fiscalizadora Superior dos Estados Unidos (General Accounting Office),
V. Daniel Hunt sustenta que os principais obstáculos para essa implantação,
em ordem de importância, são (HUNT, 1993, p. 16):
-
os servidores não acreditam que a delegação de competências
seja efetiva;
-
o organismo não conta com recursos financeiros suficientes;
-
os servidores desconhecem as ferramentas exigidas;
-
resistência à administração participativa;
-
os servidores desconhecem os novos conceitos;
-
os servidores resistem à mudança de papéis;
-
as normas da área de pessoal do serviço público;
-
a alta administração não disponibiliza o tempo demandado;
-
ausência de um planejamento de longo prazo.
Os obstáculos enumerados acima não devem ser menosprezados.
A supressão ou minimização desses obstáculos
deve ser uma das maiores preocupações dos gestores comprometidos
com a Administração para a Qualidade Total.
Porém, convém frisar que, apesar dos muitos críticos
e dos inúmeros obstáculos, a Administração
para a Qualidade Total é, modernamente, a forma mais efetiva de
combater as deficiências crônicas do serviço público.
Como notam Jerry W. Koehler e Joseph Pankowski, "... no one is advancing
a more effective approach to managing government." (KOEHLER & PANKOWSKI,
1996, p. 214)
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