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BLOW UP E "FLANEURIE"




Encastelado em um carro conversível e municiado com uma câmera, um fotógrafo percorre os espaços londrinos. "Ele examina o transeunte, o homem da multidão, (...) julga desvendar o individual no personagem-tipo do transeunte anônimo. Se o passante é arrastado inexoravelmente pela massa, como um autômato, o flâneur [fotógrafo] tem a ilusão de não ser massa, de conservar sua personalidade. Em seu passeio, ele vai colher impressões, alimentar-se de vivências (...). Entregue às fantasmagorias do espaço, é no espaço que ele percebe o tempo (...). Cidadão de um mundo sem memória, ele (...) e tem a ilusão de recapturar o tempo. Mas os dias do flâneur [fotógrafo] estão contados." (BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas: hagia, técnica, arte e política. São Paulo : Brasiliense, 1986, p. 111.)

A passagem acima, inspirada em uma das figuras-chave da alegoria benjaminiana sobre o século XIX, o flâneur, resume com incrível precisão o roteiro de Blow up, filme de M. Antonioni. Nesse, um fotógrafo explora as dimensões estéticas da condição humana em uma grande metrópole. Fragmentos trágicos, mercantis ou bucólicos são "cristalizados" pela objetiva da câmera. Parece haver a pretensão de obter-se, a partir de tais fragmentos, um painel representativo da realidade.

O fotógrafo, a exemplo do flâneur, quer-se distinto da massa. Seu ritmo de vida, amparado por uma sólida base material – carro, estúdio, telefone etc. – posta a serviço do ócio e da arte, é distingo; seu senso estético, voltado para a valorização de formas e objetos singulares, é único; seu referencial, ampliado pelas possibilidades técnicas da câmera, é privilegiado. A partir desses elementos, a personagem dedica-se a retratar o mundo.

Todavia, a representação considerada pode mostrar-se falaciosa. A objetiva abre ao fotógrafo novas possibilidades artísticas, mas simultaneamente o expõe a novos riscos. Um mergulho profundo em um fragmento qualquer pode, por certo, revelar nuances de outra forma imperceptíveis da realidade. Porém, esse mergulho, à medida que tem na técnica seu principal instrumento, favorece a atrofia dos sentidos humanos não vinculados aos fins últimos da máquina. O incremento do senso estético, por conseguinte, tende a ser acompanhado da debilitação de outras modalidades de valoração.

Este parece ser um pensamento-chave para a compreensão de Blow up, com o que se retorna ao flâneur (fotógrafo). Com sua humanidade distorcida por uma percepção eminentemente visual do mundo, com sua apreensão do outro como um objeto natural, o personagem desloca-se no tempo do sempre igual. Sua dimensão é a dimensão espacial, a mais intimamente relacionada com a imagem. E este espaço é o espaço "clean" de uma grande metrópole, desprovido de ornamentos e impermeável à retenção de rastros. A inexistência de rastros impossibilita a formação de uma memória. Logo, o flâneur é, por definição, um espécime desprovido de memória, imerso que está em uma sociedade sem história.

No instante em que a personagem esboça uma tentativa de reencontrar a sua humanidade, procurando, em meio a hesitações, posicionar-se frente a um dado concreto que reclamava uma valoração que, por sua vez, transcendesse à estética, ele se depara com uma sociedade dominada pelo alheamento. Também essa sociedade sofreu, frente à "tecnização" da vida, a hipertrofia de sua subjetividade e a atrofia de seu repositório de experiências sociais, da memória coletiva. Face a esse alheamento, a tentativa esboçada desmorona; a condição privilegiada do flâneur se esvanece; e a construção visual da realidade prevalece, não mais mascarada como cristalização dessa última. Trata-se agora de uma imagem livremente manipulada por uma "troupe"-humanidade, representação farsesca de si mesma.
 


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